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Uma Festa para celebrar 6 de Agosto, o Dia do Bom Jesus da Cana Verde -Padroeiro de Batatais-

Batatais vive a 1ª Festa do Padroeiro da Cidade, ‘Senhor Bom Jesus da Cana Verde’. Além das comemorações litúrgicas, teremos uma série de atrações para que as pessoas possam unir a devoção à diversão. Diversos brinquedos, praça de alimentação, enfim, um aparato que nunca antes foi montado pela ‘Igreja Matriz’, o que demonstra que novas ideias estão ganhando força no Santuário. A frente de tudo está o Padre PEDRO RICARDO BARTOLOMEU, 39 anos de idade, brodowskiano da gema, há 10 anos Sacerdote em Batatais, e foi com ele que a reportagem de O Jornal conversou, um bate papo descontraído sobre a ‘Festa do Padroeiro’, onde ficamos sabendo de diversas peculiaridades, entre elas sobre a ‘cana verde’ que na verdade não é uma cana de açúcar, mas um caniço, como os leitores saberão a seguir…

 

OJ – Estamos vivendo a 1ª Festa do Senhor Bom Jesus da Cana Verde’, e o senhor, Padre Pedro, foi além das comemorações litúrgicas, montou um verdadeiro aparato de atrações ao lado do Santuário…
PADRE PEDRO – O Bom Jesus da Cana Verde é padroeiro da Cidade, então não pode ficar numa coisa restrita apenas ao religioso, tem que envolver o cultural, o artístico… Por isso este ano estamos fazendo o evento desta forma, com Praça de Alimentação, o Parque de Diversões e uma boa Grade de Shows.

OJ – Bom Jesus da Cana Verde… Cana de açúcar?
PP – O Bom Jesus é a primeira devoção da Igreja católica, depois que começou a sair dos muros de Jerusalém a Igreja foi se expandindo para outros Continentes, outros Países, e antes de Roma oficializar o Cristianismo, a Armênia oficializou o Cristianismo, e é costume do Judaísmo todos os anos os Judeus irem ao templo por ocasião da Páscoa. Temos isso em todos os evangelhos… Jesus ia ao templo por ocasião da Páscoa, isto é um hábito dos Judeus, depois passou a ser também um hábito Católico, tanto é que todos os anos os Católicos iam à Roma visitar o túmulo de Pedro, chamado de Adilinema… Como essa ida era chamada de ‘Romaria’, de Roma, mas como Roma está em outro Continente, e como o Cristianismo expandiu tanto, atingiu o Mundo todo, impossível ir à Roma, então o Santuário de Roma foi até os Continentes, por isso existem vários Santuários espalhados pelo Mundo, em nível Diocesano, Nacional e Continental, aí mencionamos o Santuário de Guadalupe, Nossa Senhora Aparecida, Lourdes, Fátima, e todos que vão ao Santuário cumprem com esse preceito de visitar o túmulo, de visitar o Santuário que representa Roma, por isso ‘Romaria’.

OJ – No princípio do Catolicismo tinha de ir à Jerusalém?
PP – Exatamente, para desobrigar os Católicos irem a Jerusalém para fazer o percurso da Páscoa, ou dos Passos da Paixão de Jesus, os Passos da Paixão de Jesus foram até os Cristãos recém convertidos, então foi até Armênia, até Roma, daí os passos da Via Sacra dentro da Igreja, pros Cristãos cumprirem com essa obrigatoriedade de percorrem os Passos da Paixão de Jesus. O primeiro passo é a condenação de Jesus diante de Pilatos, então no Evangelho de São Mateus diz que Jesus diante de Pilatos foi despido de suas roupas, envolto em um manto vermelho, com uma coroa de espinhos sobre a cabeça e um caniço na mão, uma cana, uma vara verde, daí o Bom Jesus da Cana Verde.
Da Armênia essa devoção foi pra Europa, chegando a Portugal tomou uma dimensão muito grande, uma proporção enorme, e os Portugueses levaram essa devoção para as Colônias Portuguesas, entre elas, o Brasil. Do nosso litoral Norte essa devoção foi para o interior, Minas Gerais e os colonizadores mineiros, posteriormente São Paulo e o interior de São Paulo, chegando a Batatais, isso no século XIX.
Então a ‘cana verde’ na verdade não é cana de açúcar, é caniço, é uma vara verde.

OJ – Além das festividades culturais e artísticas, teremos também a parte religiosa…
PP – Começamos a preparação para Festa do Bom Jesus em Julho, no comecinho de Julho, a imagem peregrina do Bom Jesus percorreu todas as Paróquias da Cidade, começando no dia 2, na Paróquia de Santa Rita, no dia 9 na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no dia 16 na Paróquia de São Sebastião e no dia 23 no Imaculado Coração de Maria.
As pessoas que fazem parte dos movimentos pastorais, os fieis dos movimentos pastorais, as irmandades começaram a fazer a missão, então foi um mês missionário. Visitaram as famílias, principalmente os doentes, os idosos, aqueles que não podem mais visitar a Igreja, levando a imagem do Bom Jesus e fazendo as orações próprias dessa devoção.
No dia 30 de Julho iniciamos a Semana do Bom Jesus, com o Cerco de Jericó, que é uma devoção da década de 80, iniciada com o Papa João Paulo II. São sete dias de orações consecutivas.
Agora, dia 3 deste Agosto, começou a Festa Cultural, com Shows, Parque de Diversões e Praça de Alimentação. Dia 3 tivemos a Missa Das Mãos Ensanguentadas de Jesus, uma devoção da Rede Século XXI, do Padre Eduardo. No dia 4 a Missa teve a presença da ‘Tia Lolita’, que é a fundadora do Raléu, em Franca, -um movimento muito grande, muito ativo entre os jovens-, e no dia 6 neste Domingo teremos duas Missas, às 8h e às 19h.

OJ – Nas crises as pessoas buscam a salvação no místico, na fé, isso está acontecendo nessa imensa crise que vivemos no Brasil?
PP – Ainda não, está mais no supersticioso do que na fé em si… Estão procurando (as pessoas) soluções imediatas do que realmente despertando a fé… Então buscam soluções rápidas pra crise financeira, pra situações de saúde precária, e esquecem da fé.

OJ – A Igreja Católica poderia aproveitar esse momento de ‘desespero’, para ganhar novos adeptos, como vemos muitas outras religiões fazer, tem gente aí prometendo de tudo, gente que cura a AIDS, que faz dinheiro nascer em árvore (risos…), faz a mulher amada voltar rapidinho, enfim, usam o desespero para obter vantagens, como eu disse, a Igreja Católica não fez isso…
PP – Não, não, a Igreja Católica não se aproveita de situações assim de jeito nenhum! Primamos muito mais pela qualidade do que pela quantidade, tanto que Jesus chama seu grupo de ‘pequenino rebanho’, tanto que a grande multidão que seguiu Jesus, e podemos fazer esse paralelo, a grande multidão que seguiu Jesus por causa da multiplicação dos pães dissolveu, eles não estavam em busca da fé, queriam o pão, o alimento apenas físico, teve a satisfação do pão, foi embora, comeram o pão e deixaram de seguir Jesus, tanto que nos pés da cruz tinha apenas quatro pessoas, não mais a multidão da multiplicação dos pães.
O que a Igreja Católica prima e busca é a conscientização e a fé verdadeira, a adesão real a Jesus Cristo e não àquilo que Jesus Cristo pode oferecer, e o que vemos hoje é uma fé artificial, superficial e uma fé de bolso, cada um faz a fé conforme quer que ela seja, então se a fé couber dentro do meu bolso, participo, senão vou procurar uma fé que caiba. O estilo hoje da sociedade é fazer com que a religião seja de acordo com a satisfação do seu ego, e não ela se adaptar àquilo que Jesus Cristo pede.

OJ – Num momento de tanta permissividade, tanta oferta de sexo, violência, apologia do funk, percebemos que a juventude, contra tudo que se podia esperar, totalmente na contra mão do se pensava, a juventude começou a se aproximar da Igreja Católica…
PP – E você percebe, e isso eu estava conversando com alguns Monges e Frades, num encontro que tivemos, e perguntei como estavam as vocações religiosas reclusas, rigorosa, um Monge Beneditino respondeu que nunca tiveram tantas vocações como estão tendo agora.
Por incrível que pareça, a juventude, como você disse, nesse mundo com total liberalidade, onde se tem tudo que se quer na hora que se quer, está procurando uma vida rigorosa, uma vida de reclusão, deixando de lado o prazer momentâneo… A explosão da Teologia da Libertação, na década de 70, 80, está chegando ao fim, estão voltando mais pra vida contemplativa.

OJ – Isso o surpreendeu?
PP – Surpreendeu muito, sou ‘secular’, estou na Paróquia, então vivo a secularidade da sociedade, mas ouvindo isso dos Monges e dos Frades me surpreendeu muito mesmo. Outro dado interessante, o Brasil ganha nesse quesito, a Europa não, gente muito adiantada culturalmente não tem tanta intimidade com a vida de reclusão.

OJ – Ainda sobre a juventude e a fé, o tabú da virgindade existia não por opção, mas por medo, lembro bem que uma jovem não virgem era discriminada nas décadas de 70, 80,90. Havia aquela coisa de ‘essa é pra casar’, ‘essa é pra’… Hoje a virgindade voltou a ser um pilar, agora não mais por medo, mas por opção, estou errado pensando assim?
PP – Exatamente, a virgindade hoje é mantida por opção, eu que acompanho os jovens, casais de namorados, noivos que se preparam pro casamento, ouço muito deles: “fizemos a opção de nos mantermos castos até o casamento”, então isso é realmente uma opção, não mais por imposição.

OJ – Mudando o foco da nossa conversa… Acabamos de ver a chamada ‘Bancada Evangélica’ votar em peso contra a denúncia para que o Presidente Temer fosse investigado, e a imprensa cansou de dizer que ‘coisas estranhas’, pra não dizer outra coisa, aconteceram pra essa bancada agir como agiu… A Igreja Católica atua politicamente através da CNBB -Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-, não existe a ‘Bancada Católica’, isso foi um acerto diante da situação que o Brasil vive?

PP – A participação mais ativa da Igreja Católica na política fazia parte da Teologia da Libertação, nos anos 1970, mas a função da Igreja é a orientação, a educação civil, política, não apenas religiosa, e não ‘estar no meio’, mas orientar e informar sobre a situação existente. Não é vantajoso e não é evangélico, nessa situação, a Igreja estar no meio. Vemos uma podridão muito grande no meio político, então a Igreja não tem que ‘estar lá’, ser um do grupo, mas estar no grupo para orientar sobre.

OJ – Quando a Paróquia se transformou em Santuário o pensamento era que a Cidade passaria a fazer parte do chamado ‘Turismo Católico’… Estamos chegando a isso, temos recebido caravanas de outras cidades para ver o Santuário, não apenas dos turistas que vêm conhecer as Telas de Portinari?
PP – Agora o Secretário Municipal de Turismo (Fernando Jordão) está lutando para incluir Batatais no Roteiro do Turismo Religioso do Estado de São Paulo, tanto que a Festa deste ano já está fazendo parte deste projeto, e aqui fica minha gratidão ao Fernando Jordão, ao Luciano Dami, (Diretor de Cultura), por abrirem esse espaço e estarem lutando pra isso, pro crescimento do Turismo de Batatais, Turismo Religioso e Turismo Museulógico, Cultural, o que trará renda pra Cidade. Então esse é um avanço muito grande, um passo muito largo que está se dando. Mas essa construção de Romarias, de Peregrinações vai se fazer com o tempo. Se passaram apenas dois anos (da criação do Santuário), é muito recente, mas já percebemos um crescimento de 2016 para este ano de 2017.
Os que vêm ver as Telas de Portinari são visitantes, não são turistas, mas no que diz respeito a pessoas que vêm ‘pelo Santuário’, temos identificado muitos casos. O ano passado, em Março, tivemos uma concentração enorme da Arquidiocese toda. Este ano teremos outra concentração no final de Agosto… O ano passado também tivemos a ‘Porta Santa’, que foi atribuído somente aos Santuários. Franca não tem Santuário, então todos da Região que pertencem a Franca vieram ao nosso Santuário.

OJ – O senhor está se sentindo um ‘marajá’ (risos…), afinal, como acabou de dizer, Franca não tem um Santuário, e o senhor é responsável por um Santuário diferenciado, pela arquitetura da Igreja, as Telas de Portinari…
PP – Não, nada de me sentir ‘especial’, tanto porque isso (ser o responsável pelo Santuário) é um serviço…

OJ – Mais um encargo do que um cargo…
PP – Uma vez ouvi de um Bispo, e isso me calou fundo, ele disse: “Todo mundo acha que quando se é nomeado Bispo é um privilégio, pelo contrário, é quase um castigo assumir o cargo de Bispo, pois a responsabilidade é muito grande”. Então ser Reitor de um Santuário de tamanha importância como o nosso, é uma responsabilidade muito grande, e torna quase que um peso.