Rodapé Literário - Juscelino Pernambuco

Assuntos de gramática e leitura

Querendo ou não, a gramática é importante, é referência para o uso da língua. Ela não quer ser rainha; quer ser serviçal da fala e da escrita. Veio para ajudar, não para amedrontar. Quer ser amada, respeitada, não temida e detestada. Não importa de ser questionada, aceita o diálogo. Quer ser bem ensinada, sobretudo, ligada ao fenômeno do estilo. Gramática e estilo: eis um caso de amor.
A gramática normativa aconselha que se evitem exemplos como os que seguem:
1) …quando ela transferiu-se para o Rio de Janeiro…Explicação: A conjunção subordinativa temporal, quando, exige o pronome SE, antes do verbo (próclise): …quando ela se transferiu.
2) …ele havia formado-se em Medicina. O certo é: Ele havia-se formado em Medicina. Razão: Quando se trata de locução com o particípio a regra é colocar o pronome depois do verbo auxiliar (havia, no exemplo), com o hífen.
3) Então, comprarei-a para nós. O correto é: Então a comprarei para nós. Explicação: não se usa ênclise (pronome depois do verbo no futuro do presente e no futuro do pretérito.
4) Desse modo, poderia-se fazer o contrato. A colocação adequada seria: Desse modo, poder-se-ia fazer o contrato. Mesóclise no verbo auxiliar.
5) Não cabe-lhe este direito…O correto é: Não lhe cabe este direito. Partículas de negação como: não, nunca, jamais, atraem o pronome para antes do verbo.
Essas colocações dos pronomes: se, a e lhe estão inadequadas, de acordo com as regras gramaticais.
Comentemos os preceitos da norma gramatical.
Os pronomes oblíquos átonos, isto é, os pronomes que servem de complementos aos verbos e são sem força tônica, por isso mesmo apoiam-se nos verbos, podem vir antes, depois ou no meio dos verbos. Essas colocações chamam-se: próclise, ênclise e mesóclise, pela ordem.
A próclise deve ocorrer sempre que:
1) aparecerem palavras negativas e advérbios como: não, nunca, jamais, menos, ainda, bastante, bem, já, muito, quase, só, talvez, tanto bem etc.
2) pronomes relativos: cujo, que, os quais, as quais, quem etc.
3) conjunções subordinativas: que, quando, porque, conforme, se, para que, à medida que etc.
Vejamos alguns exemplos de colocações adequadas aos usos na norma prestigiada socialmente:
A). Não a vejo faz muito tempo). Para ser mais exato, faz dois anos que não a encontro. c) Sempre lhe disse que não a queria longe por mais de um mês. d). Se pudesse, a amaria.
Imagine um rapaz dizer para uma moça: “Se eu pudesse, amá-la-ia. ” — “Ah, que mala sem alça”, dirá a moça.
Existe um ramo da Linguística que é a Sociolinguística, a qual trata da relação entre a língua que o cidadão fala e a classe social a que ele pertence. Para os sociolinguistas, não existe superioridade de uma norma da língua em relação à outra e também não há deficiência no linguajar das pessoas não cultas, mas diferença no uso da língua. Essa teoria comprova ainda que a língua é a soma de todas as variações na fala e na escrita.
Defendo a posição de que a escola tem por obrigação ensinar bem a norma considerada culta da língua a todos os seus alunos de todos os níveis de ensino como acréscimo ao modo de falar que eles já dominam no seu ambiente familiar e social, mas não como substituição ao padrão que eles adquiriram no seu meio. É essa uma estratégia acertada, conforme a minha prática de ensino tem comprovado. Tomar como ponto de partida o linguajar que a criança traz quando ingressa na escola e, com base nesse padrão, ensinar, e bem, a norma prestigiada pela sociedade é o papel do professor.
Fecho meu texto com o Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa: “Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos.
” Até a próxima!